Defesa Anti-m�ssil

Desde o desmantelamento do império soviético, a OTAN perdeu a sua razão de existir enquanto salvaguarda do mundo livre relativamente ao perigo vermelho de leste. O fim daquele enquadramento geopolítico levou a que os propósitos originais da OTAN fossem ultrapassados, passando esta organização a afigurar-se cada vez mais como um pilar das forças americanas na Europa.

Com efeito, há décadas que estão estacionados dezenas de milhar de militares americanos, principalmente em países como Itália, Alemanha, Espanha e Reino Unido, onde estão também colocados importantes arsenais que incluem armas nucleares a conviver paredes-meias com os cidadãos desses países.

Mas um novo episódio deve alertar-nos mais ainda relativamente à excessiva presença militar norte-americana em solo europeu. Com a sobranceria típica de uma potência imperialista, os Estados Unidos estão a negociar directamente com o governo polaco a instalação de 4 a 5 plataformas de sistemas anti-míssil e com o governo checo a instalação de um sistema de radares para detecção e condução de intercepção.

A justificação americana para este projecto militar de envergadura é a hipotética construção de mísseis balísticos de alcance intercontinental por parte dos iranianos. No entanto, a construção deste tipo de armamento ofensivo está apenas ao alcance das grandes potências económicas e tecnológicas, o que não é o caso do Irão. Além do mais, a Agência Internacional de Energia Atómica afiança que o Irão está ainda a anos-luz de ter a capacidade para produzir armas atómicas. Assim, com base em mais uma mentira, os Estados Unidos querem instalar na Europa uma base avançada da sua defesa anti-míssil.

Felizmente, numa atitude lúcida, vários governos europeus mostraram-se contra uma negociação bilateral entre os EUA e cada um dos países visados (Polónia e República Checa), mas não houve, verdadeiramente, uma reacção enérgica de repúdio perante a desautorização e ultrapassagem das instâncias europeias numa matéria tão fundamental como a da Defesa.

O novo sistema de defesa norte-americano em solo europeu não se destina a proteger a Europa, mas sim a alterar o equilíbrio actualmente existente em favor dos EUA, afrontando directamente a Rússia e possibilitando um novo cenário de guerra-fria, com a Europa no centro da disputa.

Por um lado, os EUA garantem protecção própria contra vectores russos e asiáticos, por outro, vendem a ideia de estarem a proteger os “aliados”, mantendo a Europa cada vez mais refugiada no seu guarda-chuva militar, e sem meios autónomos de defesa, levando-a também a uma menor capacidade negocial no palco internacional e a uma maior dependência face aos EUA.

É também por demais evidente que se a OTAN permitir a instalação do sistema anti-míssil americano na Polónia e na República Checa, vai abrir mais um contencioso entre a União Europeia e a Rússia, como já diversas declarações de chefias militares russas têm vindo a demonstrar.

Numa só cartada, os EUA reafirmam a sua posição internacional, comprando os governos polaco e checo, passando por cima das instâncias europeias, dividindo a Europa, e garantem mais um instrumento de defesa fora de portas, com capacidade de pressionar a Rússia.

Perante este cenário, é pois cada vez mais urgente afirmar um novo modelo europeu de defesa, independente dos interesses quer norte-americanos quer asiáticos e capaz de responder às ameaças do séc. XXI. Nesse sentido, é necessário caminhar para a constituição de uma força de defesa europeia comum, capaz de assegurar a defesa efectiva das suas fronteiras, uma força de intervenção rápida capaz de projectar forças à distância para recuperar/defender cidadãos e interesses seus em perigo, para além das forças nacionais afectas à defesa territorial de cada Nação. É necessário acabar de vez com a subserviência sistemática da OTAN aos interesses políticos e comerciais dos Estados Unidos e adoptar uma postura eurocêntrica em matéria de Defesa.

Carlos Branco
Filipe Batista e Silva