
A pirotecnia e o fabrico de explosivos de artifício são um assunto praticamente desconhecido para a maioria das pessoas. Mas, muitos de nós gostamos de ver fogos de artifício em passagens de ano, festas, romarias e outros eventos.
Creio eu que a esmagadora maioria do público não saberá que por detrás de tais coisas estão dezenas de micro, pequenas e algumas médias empresas que garantem o pão de cada dia a milhares de pessoas.
A pirotecnia, ou seja, o fabrico de foguetes, é uma arte tão antiga neste nosso Portugal que o próprio Luís de Camões faz uma alusão ao lançamento de bombas e fogos de artificio na sua magnifica epopeia “Os Lusíadas”.
Actualmente, na maioria dos casos, as empresas do ramo existentes são geridas por pessoas cujos antepassados estavam já ligados ao ramo pirotécnico. Sempre que nos deslocamos a qualquer romaria, por mais pequena que seja, assistimos sempre ao lançamento de foguetes.
O típico foguete português divide-se em várias categorias, sendo de destacar, por exemplo, o foguete de “5 Tiros”, o foguete de “Metralhadora” que ao deflagrar parece um rajada de metralhadora, o foguete de quatro cargas duplas, o foguete de cinco meias cargas, as “bombas” de cana, ou de morteiro ou ainda as girândolas, que é uma tábua onde são colocados cerca de 20 foguetes, ligados por um rastilho que quando incendiado faz o lançamento de todos ao mesmo tempo.
Por imperativo legal cada tiro de foguete não pode exceder as 50 gramas de peso e as 100 gramas na “bomba lisa”. De fabrico português é também o “fogo preso” onde se destacam por exemplo, as “vacas de fogo” que é um boneco em forma desse animal e “ornamentado” com cores, tiros e “rabiadeiras”, é carregado ás costas de um homem que corre o objecto pelo arraial até o material deflagrar por completo, e os “ferreirinhos” que são bonecos que retratam as mais diversas profissões, e que são ornamentados com fogo de artificio, e que no final rebenta uma bomba na cabeça.
Recentemente uma lei veio proibir o lançamento de foguetes de cana durante o período de verão, devido aos incêndios. Mas, diga-se de passagem os incêndios continuam a acontecer, e muitos deles são em locais onde nunca se lançam foguetes, o que me leva a crer que só uma ínfima parte destes sinistros são provocados pelos foguetes.
Convém dizer que para o lançamento legal de fogo de artifício é necessário uma licença escrita dos bombeiros da área, uma licença escrita da PSP em que atesta que o local de lançamento é seguro, e uma licença de ruído passada pela Câmara Municipal. A fiscalização da indústria pirotécnica é feita em Portugal pela Comissão de Explosivos. Para contornar este problema os fogueteiros lusitanos tiveram que recorrer aos foguetes de morteiro, que são lançados de dentro de um tubo, e assim não necessitam de cana.
Nos nossos dias temos assistido a uma forte “invasão” do fogo de artifício chinês, fogo esse que também é de qualidade, nomeadamente o uso de candelas, granadas de cores e “baterias” que são pequenas caixas de onde são disparados tiros e cores.
Mas o foguete de cana é um foguete de fabrico quase exclusivamente português, uma vez que só na vizinha Galiza e em algumas (poucas) regiões de Espanha é que este tipo de foguete existe, embora em menores proporções.
Por estas e muitas outras razões o “foguete de cana” faz parte das tradições e da alma do povo português, podendo-se mesmo dizer que o foguete é um património nacional.
Francisco Pereira


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